PORTUGUESE THREAT

Pedro Góis Nogueira
2 min readMar 20, 2021

Não se repete este quadro
Três horas ou nem tanto
Da Cibeles ao Congresso dos Deputados
Subida a Plaza de Santa Ana
A das cervejarias
Cada uma a mais autêntica
Entro na terceira
O empregado de balcão é dos puros
Faz lembrar o Albano da Bota Velha
Só que mais alto, firme, listo
Peço um bocadilllo de tortilla
Com pimento vermelho
Picante
Acompanhando a cerveja
Começo a ouvir dois sotaques
São dos United States of America
O mais velho, adivinho bem, é guia turístico
À beira da reforma, diz que viveu
Em Paris muitos anos
Que conhece Madrid como as linhas das mãos
Lisboa também
Diz que em Portugal todos falam inglês
E falam bem!
Só que o companheiro não está de acordo, diz que
Portugal é complicado
Não pelo inglês mas pelo esquerdismo
Comunismo, socialismo
You name it
São revolucionários
É complicado
E eu penso logo na capa da revista Time
Agosto de 75: Red Threat in Portugal.
Quero meter-me na conversa
Só que o guia corta
Diz que a já Europa não deixa
It is totally impossible
Better cut it off, amigo
Impõe-se então mesmo em frente
A ponte de Saint Patrick
É um enorme espelho irlandês
E o amigo nunca vira a Saint Patrick retratada daquela maneira
Tão pretty cool
Let me take a photo, please,
É para a minha filha que tem
Um bar em Nova Iorque
Então o guia achou que era a hora de saber
Se estava a gostar de Madrid
Oh yeah, Madrid’s great, is beautiful
Como se dissesse mal cheguei já estou a ver coisas raras
Só não percebi o que respondeu o guia
Qualquer coisa com o Aeroporto de Filadélfia
Está quase na hora do Museu do Prado.

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Pedro Góis Nogueira

Poems, short stories, essays and aphorisms | Lisbon, Portugal, 1974