Pela casa de António Machado

Pedro Góis Nogueira
3 min readAug 12, 2022

Pequena, fria, não se poderia considerar bem uma pensão, mais uma casa de hóspedes. Os dias eram de neve, o que ainda enchia mais da cor branca do tempo aquela hora que terei ali estado, entrando por uma espécie de mini-livraria. É para visitar a casa?, perguntou-me uma senhora já bem entrada nos cinquentas. Efectivamente, deu-me uns auriculares, que não funcionavam lá muito bem, mas não dei importância, que só de chegar ali me chamava o silêncio. Primeiro na humilde cozinha, para se instalar definitivamente na sala de jantar, a quem chamam o comedor. Era um silêncio povoado de memória, de livros. Memória extensão de vidas inteiras. Memória chamamento à mesa das comidas, ao silêncio da solidão partilhada, dos que antes estavam, dos que depois se vão. Cristalizaram-se os tempos, como se desenrolaram pensamentos, conversas, afectos, dores de criação, alegrias mais profundas que a dor. Do tempo, que é sempre uno com uno, um tempo a cada momento, presente que de imediato passa a passado, futuro que se torna presente… tic-tac, tic-tac, tic-tac, há algo de muito profundo a ser dito em nos relógios de parede, a sinalizar cada unidade, o tempo a conta gotas, ao sabor das horas, dos dias, das épocas, o tempo que não é todo igual, como os momentos não são todos iguais.

Ali, no silêncio, podemos encontrar o tempo em seu próprio espaço: é dia de neve. A mesa humilde em tudo grandeza, as coisas como elas são, o cuidado foi deixarem-nas intactas. O poeta a marcar memórias — que serão daqui a pouco memórias da memória — até a um país da imaginação onde é desejável voltarmos mais vezes. Para que nos recordemos.

Sair para o corredor, as portas para dois quartos, depois um átrio onde se vêem retratos de António Machado, um deles de Picasso. O poeta em suas distintas facetas, e como é distinto em cada uma, como se o mesmo fosse sempre outro, presença de alta intensidade, de pensamento, de compromisso, de carisma. Entro numa salinha com várias edições dos seus livros. Na secção à direita, os poemas, na da esquerda, o teatro, ao meio, salta logo à vista, está Guiomar, marcada, nota-se. Hora de ligar o auricular, ouvir os factos, figuras e teorias: que chegara a ser sua amante, que não fora amante coisíssima nenhuma, sua devoção religiosa não o permitiria; que o amor fora platónico; que Guiomar sobretudo musa, guia e inspiração, que sendo Machado muito tímido, a terá sublimado aos píncaros, o que pode abrir outras leituras, quem sabe uma Beatriz montando a cerca.

Não vou por aí, imagino antes uma forte cumplicidade, um mistério a navegar o sublime, não pelos novelos particulares jogando os dias fora. A inteligência, o ver além, o desassombro, sua sabedoria, a transcendência da palavra, combinada ao estilo, ao sentido de jogo, desbravando caminhos, o que pressupõe coragem, perfeita solidão.

E esse poeta de escritas era também homem de mundo, de leituras, dão-se a ver no seu quarto os livros, outras viagens pelo silêncio. A casa pode ser o absoluto contrário de uma mansão ou palacete, no entanto para mim foi mais rico e compensador que ir ao Palácio de Aranjuéz…

Descendo as escadas, para o átrio de entrada, pergunta-me se tinha gostado, só que a palavra não saía senão com muita dificuldade. Ao esforço lá consegui um falsete, tão mal articulado que a memória fez-me o favor de o esquecer. Tento emendar com os elogios que a comoção me deixa, creio que a senhora terá percebido o que se encontrava detrás dessa secura, desse saber ter sido tocado pelo impronunciável: «usted ha tenido mucha suerte! Normalmente esto tiene mucha gente, hay mucho ruído».

Antonio Machado por Leandro Oroz

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Pedro Góis Nogueira

Poems, short stories, essays and aphorisms | Lisbon, Portugal, 1974