VEM DE UMA ILHA DO PACÍFICO

No seu olhar ilhas do Pacífico Sentindo mesmo não sabendo Que já está cá há muito tempo Toda uma vida longe da sua ilha Que ela não sabe quando vislumbro Os fundos marinhos no seu olhar Matinal já pôr do sol a doirar este pouco suportável Inverno Dia a dia dela no escritório Focada em ecrãs Ignorando Esse lugar de infinidades onde se absorvem solares Mistérios antes do Sol Tempos atrás de tempos atrás E só por mim é de agora ela ancestral lança dessa ilha de danças No que são nisso cem anos? Mesmo mais cem, e mais cem…


A minha ansiedade, o meu medo têm de ser acalmados para não perder o controlo. O medo é um barril de pólvora. Mais cedo ou mais tarde, o tempo linear aqui não serve, tocaria meus ombros tensos depois dos ombros dela, todos penhascos. Aprendi isso no Aikido. Os ombros mais duros que conhecera eram os da minha ex, outro tempo, ex-tempo. Só que o tempo linear era uma ilusão. O tempo só é linear enquanto não chegamos ao precipício. Aí passa a ser limiar, tempo limiar. Dos ombros. Penhascos que utilizei num poema a partir de um momento em que…


Narrando, temos de dar flanco ao personagem — ouvi-lo, deixá-lo agir, existir, ser ele próprio — sob pena de ficarmos reféns da ideia inicial. Assim nos terá feito o criador: entregues a nós, ao acaso, e na melhor das hipóteses, às suas tentativas de aperfeiçoar a obra… Ele que terá as melhores intenções, mas pouco pode, está a desenrolar a trama, agora mesmo… Também Ele é refém do mistério. Também Nele as imagens (se) projectam… Mais as leis… Gravidades… Erros… Contradições… O diabo! Sim, o diabo que sempre sabota os caminhos. Juntem-se-lhe os deuses de outros mundos. Impossíveis de todo aqui. São doutro livro.

— Publicado em ‘Estrada dos Prazeres, Letras Paralelas, 2017 —


Bilbau, 7 de Abril de 2019

O dia de anos do meu irmão podia ser resumido a Iago Aspas a triunfar numa televisão silenciosa num hotel de Bilbau. Está nada mau. A chuva e os deuses concordam. Chuva abençoada em Vigo, chuva abençoada lá fora, na rua, no rico País Vasco, onde por mais que chova nada parece inundar-se. Mais por ser terra rija, de raça humana batida das montanhas, forjada do ferro depois da purga dos anos 80, o que daria outro longo texto, ou tanto melhor como os documentários no You Tube ou no sítio da RTVE, e…


Energia acumulada,
o curto circuito de um mundo que acaba.

Tu nada.

E de voo picado, vivo, rés no chão,
cansado contigo, dado solidão.

Voando raramente se dá pela viagem,
e quando regressas,
regressas de onde não sabem…

— Incluído em Estrada dos Prazeres, Letras Paralelas, 2017 —


O QUE HÁ EM ESCREVER SÓ HÁ EM ESCREVENDO

FORMAS DE CORRESPONDÊNCIA

1

Nada nos cálculos da combustão solar nos dará ideia de como trabalhar a luz. Também não é necessário. Basta integrá-la em voz.

2

As raízes da civilização seguram-nos, asseguram-nos.

3

A ideia de todas as milhas percorridas não deixa de me assombrar o entendimento. Também não deixa de me fazer acreditar em todos os milagres.

4

Poder respirar dá-nos o poder de respirar.

5

O que há em escrever só há em escrevendo…

6

Não me faças sentir sombra, deixas de ver-me, a luz.

7

Meu lado razoável só me quer estóico, nada razoável.

8

O…


QUATRO RASTOS DE AVIÃO APONTANDO TÂNGER

Rochedo de gente
África vista da esplanada
Se em Lisboa é Outono/Inverno, aqui é Primavera/Verão
Rochedo de gente
Tinha uma ideia muito pior do que viria a ser, afinal…
Os horteras foram varridos para debaixo de outros tapetes
Lá como cá, espanhóis e portugueses bem se assemelham
Elevados em arabescos, procurando chama, farejando prata
Mãe Natureza virá pôr tudo em pratos limpos
A ordem ainda não sabemos.
Por ora, ouviremos o Volare comendo um peixinho
Grelhado no restaurante italiano
Nem parece ser verdade ver daqui Gibraltar
África defronte, no céu, quatro rastos de avião descem flagrantes apontando
Tânger
E todas as letras que ainda não deciframos.


Os tempos davam tempestade

Forte em certas alturas

Da estrada

Vinhas do País Basco

Reflectindo todo o sul

Da semana passada

Depois, enquanto escolhias dois robalos

Falavas da infância, as férias

Chegado a casa, onde pudeste assentar

Tomaste consciência da importância de envelhecer

aquelas horas

Até teres mesmo de criar um novo emprego

Para poderes ajudar este poema

Pensas na cerveja de Bilbau

Vem-te à ideia Orson Welles e os pombos correio de

Euskadi

Espanha França e vice-versa

Mas sobretudo esse auto-retrato de Goya

Não se desviou de ti um milímetro

Nunca parou de seguir-te até ao fim da sala

Não, não tirou o olho de ti

Trazia dito topei-te

A partir de agora já não tens escapa.

[Publicado em Nem paz, nem guerra, Urutau, 2020]


Forma não forma

Forma

É outra forma. Depois de pesada

Equivale o texto. Textura ao texto.

Palavra à densidade da matéria

A liberdade pensa

Pesa a cor.

— — — — — — — — — — — —

Talvez a luz tenha aberto a golpes de enxada.

— — — — — — — — — — — —

Este violino só tem duas cordas, um x questiona

Há uma persiana que o percorre, só não o encerra

Este violino tem de ser visto. Tem de ser pensado. O mundo deve saber.

Pode ser alvo de uma sórdida dissolução.


Não se repete este quadro Três horas ou nem tanto Da Cibeles ao Congresso dos Deputados Subida a Plaza de Santa Ana A das cervejarias Cada uma a mais autêntica Entro na terceira O empregado de balcão é dos puros Faz lembrar o Albano da Bota Velha Só que mais alto, firme, listo Peço um bocadilllo de tortilla Com pimento vermelho Picante Acompanhando a cerveja Começo a ouvir dois sotaques São dos United States of America O mais velho, adivinho bem, é guia turístico À beira da reforma, diz que viveu Em Paris muitos anos Que conhece Madrid como as…

Pedro Góis Nogueira

Poems, short stories, essays and aphorisms | Lisbon, Portugal, 1974

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