Forma não forma

Forma

É outra forma. Depois de pesada

Equivale ao texto. Textura ao texto.

Palavra à densidade da matéria

A liberdade pensa

A cor pesa

A luz aberta a golpes de enxada.

— — — — — — — — — — — —

Este violino só tem duas cordas, um x questiona

Há uma persiana que o percorre, só não o encerra

Este violino tem de ser visto

Pode ser alvo de uma sórdida dissolução.

— — — — — — — — — — — —

Não passa a ser novo o ar que se respira?

Se este violino não toca é porque está a tocar.

E a Verdade respira à prova de estarmos vivos.


Poetas hoje há

Que pensam mais

No seu poema

Do que o seu poema parece

E o seu poema, que se intui,

Parecia alguma coisa,

Afinal não se parece com nada

Que isto à cautela mais vale

Que o que se escreva não se pareça

Com nada, que seja o poeta

A parecer coisa nenhuma

«E o radar sublime do leitor não alcançou no poeta a altura?»

Como não pode o pseudo-poeta

fazer como o pseudo-escritor?

Apesar de ainda não se ter, que eu saiba,

Usado um pós-moderno pós-poeta

Parecer-se com nada sempre entra

Nesse determinado pós-imperativo

Onde o nada sublime exprime

O sublime com nada.


Nothing great can be possessed by us on earth, unless we men, for whose benefit all earthly things were created, possess ourselves; man can be taken by no other bait whatsoever than their own nature.

The cosmos is itself an animal more unified than any other animal, the most perfect…


Montanhas que cantam alto
Tão alto que não as podemos ouvir
A estender o princípio
Em trechos de tempo
Um instante a cada milénio
Se os deuses têm forma de gente
As montanhas impõem o temor certo
Não nos distinguiríamos da areia
De um relógio
E tardará pouco até que revigoremos a cidade.


Sujeito a regras incidências

Partida com tempo certo determinado

Vencedores defendidos as imprevidências

Não está ainda definido o resultado

Que é medida de um para cada um

Neste campeonato sem termo e sem datas

Não invalida que cada jogo seja nenhum

Não há qualquer sorteio efectuado

E jogando vamos-nos jogando

Com todo o esforço em prosseguir

Pensar somente tropeçando

Não perder a bola conseguir.


Não temos como medir

A espessura da realidade

Pode ser um problema

Não termos com que saber

Da realidade a sua espessura

Pelo sabermos que existe estamos

A conhecer apenas quando podemos sentir

Sendo nós parte da espessura da realidade raro é

Sentir que a única forma de o medir

Nem sequer é forma de medir alguma

Forma de o medir

Pois por pouca que seja sua espessura,

Espessuras nossas, espessuras próximas,

Dentro de toda a espessura, na realidade

Nós somos a única comprovada conhecida espessura

Sabemos sem ter a certeza

De todas as outras espessuras que

Apenas conhecemos como imaginamos

Napoleão coroado

Cláudio escondido num armário

Espessuras de tempo(s) tecidas em tempo(s)

Dentro de outros tempos entretanto tecidos

Na Tróia dos milhares cantando

Milenares reflexos

De um dia.

Estrada dos Prazeres, Campo das Letras, 2017


Esse estado elementar é um lugar de amor perdido de amor não podia ficar.

— Som dissonante da tua distância —

— Ou será (a) tua (a) trovoada silenciosa? —

Não sei nem poderei saber como um dia lá voltar

Parados não estamos

A milhares de quilómetros segundo

Voamos entre inter-galáxias

Quando a vida inteira corre ainda

A velocidades mais rápidas…

[Estrada dos Prazeres, Campo das Letras, 2017]


Without suffering as motivation, the pursuit of enlightenment is reduced to entertainment.

In Taoism, as in life, you should see the road clearly.

Avoiding conflict at all costs is a coward’s principle. The lack of passion to fight finds its twin in the lack of passion to love. …


O campo de futebol do outro lado da vila

Como se afinal houvesse outro lado — e afinal havia.

Ela tratando de tudo, inteirando-se de tudo, cuidando

A sua terra é o seu entusiasmo

Daí sente-se em paz em todos os cemitérios

A magia forte apesar dos buracos

Que aqui nunca serão ruínas

A acreditar em tudo aquilo que já vi

E ouvi

Do bairro judeu esse humor

Que sabe ligar e desligar

O interruptor das horas

Também, na minha cidade já não me estava a sentir nada bem

Na duvida, sempre na duvida, se estas linhas

Não deviam acabar já num ponto de interrogação

Ou até mesmo antes do tempo.


You do not know, you can’t know for sure
If you will write next time
Or even if you will write again
Maybe later, later may be
Your gut will tell you — always your gut
That you don’t know and cannot know
For sure
That your very imagination has its own geology
Layers of past you will remove
Your words
Invisible cities
Don’t make it hollow while you dig strong
Dirty dust weight layers
Where we only can guess
The word.

Pedro Góis Nogueira

Poems, short stories, essays and aphorisms | Lisbon, Portugal, 1974

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