Não temos como medir

A espessura da realidade

Pode ser um problema

Não termos com que saber

Da realidade a sua espessura

Pelo sabermos que existe estamos

A conhecer apenas quando podemos sentir

Sendo nós parte da espessura da realidade raro é

Sentir que a única forma de o medir

Nem sequer é forma de medir alguma

Forma de o medir

Pois por pouca que seja sua espessura,

Espessuras nossas, espessuras próximas,

Dentro de toda a espessura, na realidade

Nós somos a única comprovada conhecida espessura

Sabemos sem ter a certeza

De todas as outras espessuras que

Apenas conhecemos como imaginamos

Napoleão coroado

Cláudio escondido num armário

Espessuras de tempo(s) tecidas em tempo(s)

Dentro de outros tempos entretanto tecidos

Na Tróia dos milhares cantando

Milenares reflexos

De um dia.

Estrada dos Prazeres, Campo das Letras, 2017


Esse estado elementar é um lugar de amor perdido de amor não podia ficar.

— Som dissonante da tua distância —

— Ou será (a) tua (a) trovoada silenciosa? —

Não sei nem poderei saber como um dia lá voltar

Parados não estamos

A milhares de quilómetros segundo

Voamos entre inter-galáxias

Quando a vida inteira corre ainda

A velocidades mais rápidas…

[Estrada dos Prazeres, Campo das Letras, 2017]


Without suffering as motivation, the pursuit of enlightenment is reduced to entertainment.

In Taoism, as in life, you should see the road clearly.

Avoiding conflict at all costs is a coward’s principle. The lack of passion to fight finds its twin in the lack of passion to love. A master warrior is a sensitive person.

To have been cast in this human form is to us already a source of joy. How much greater joy beyond our conception to know that which is now in human form may undergo countless transitions, with only the infinite to look forward to? …


O campo de futebol do outro lado da vila

Como se afinal houvesse outro lado — e afinal havia.

Ela tratando de tudo, inteirando-se de tudo, cuidando

A sua própria terra é o seu entusiasmo

Fossem assim todas as matérias

Daí sente-se em paz em todos os cemitérios

A magia forte apesar dos buracos

Que nunca serão ruínas

A acreditar em tudo aquilo que já vi

Duvido que alguma vez quebre

Sua alma sabe

Do bairro judeu

Esse humor com que podemos ligar e desligar

O interruptor do tempo

Também, na minha cidade já não me estava a sentir nada bem

A minha cidade até meu pai ser Petrarca a dizer que era

Das mais belas cidades do mundo

Na duvida, sempre na duvida, se estas linhas

Não deviam acabar já num ponto de interrogação

Ou até mesmo antes do tempo.


You do not know, you cannot know for sure
If you will write next time
Or even if you will write again
Later maybe
Your gut will tell you — always your gut
That you don’t know and cannot
Know for sure
That your very imagination has its own geology
Layers of past you will remove between the drawers
Your words invisible cities
Don’t make it hollow while you dig strong
Dirty dust weight layers
Where we only can guess
The word.


My time is not my weather
But my weather has time
Tides and seasons
My time is something else
Does not live in states of mind
Doesn’t suffer
Divisions
Discord, indecisions
Illusions, delusions
My time has neither wars nor storms
Natural disasters foreign bodies falling from Earth
My time is rather a quiet walk
It runs its course, infinite, until it ends
And who says course
Says discourse
My time, yes, my time
All laws follows by
Gravity
Exact rule
Discipline
My time, yes, my time
A time with time
Has to be time
It’s time.


Rui A. Pereira

Escreves enquanto desenhas. Descobres a forma que te descobre. Tens na pele a cor vermelha. Não se sabe se do sangue, se da tribo. Não podemos dizer que não sabemos nada. Há sempre o limite. Há sempre essa linha enquanto não vemos o que nos sai da matéria. Poeira ao fogo, a seta escrita: Peles Vermelhas. Sentido confundem. Literal é o que faltava. Sentidos sentidos nos defendemos. Peles Vermelhas.


Billie Holiday e Louis Armstrong e Tom Waits e Leonard Cohen. Depois também Pink Floyd e Dire Straits e King Crimson (“Moonchild”, nem por acaso). O locutor não sei se bebia pouco, se bebia muito, se sequer bebia, sua voz, porém, trazia o decoro do whisky aliado à pujança contida de algum cowboy solitário. Forte e encorpada, mas ao mesmo tempo terna e discreta quanto baste para se exibir pouco, para deixar para no(s) ar(es) o(s) subentendido(s). Não dar nas vistas e ao mesmo tempo inebriar esse ouvinte desconhecido da noite. Partilha de solidão, não solidão de partilha. Sim, há…


Acordar tarde finalizados os sonhos descontinuados. Jamais vi aquelas pessoas, aqueles lugares, aquelas situações. Uma asiática e uma farmácia; um metaleiro pedinte; um carteiro numa cidade inidentificável. Isto depois de ter adormecido na tua imagem. Até despertar suado-arrependido. Raio comprimido o raio do comprimido — mas adiante. Vivam os copos. Vivam os anti-corpos. Os anti-corpos nunca o anti-corpo — e a nossa corda é muito mais forte que tudo aquilo que a sustém, vá-lá. Eu vou. Intuo tudo através dessa luz precisa nascida no preciso momento em que nos conhecemos. Autómato negro dicionário. Do sacrifício que ninguém lê. Do sacrifício…


YELLOW SUBMARINE | Entramos pela estrada nacional, depois de 800 quilómetros sofridos, e damos logo com a interminável fábrica da Porcelanosa, que de tão grande parece capaz de cobrir a cidade inteira. À primeira rotunda temos o hotel, o único que dá para ficar — e onde esteve o Sporting e todas as equipas que aqui vêm jogar — e mesmo ao lado o campo de treinos do Villareal Club de Fútbol. Ficamos logo para perceber tudo. …

Pedro Góis Nogueira

Poems, short stories, essays and aphorisms | Lisbon, Portugal, 1974

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