Desenho Rui A. Pereira

Algo em mim leva a que se submeta

Não é certamente a minha voz

Saber o quanto sou antes

Faz-me entendê-lo melhor.

Falo de palavras bem limitadas

Enquadradas em sua rede socializante

Estatutos académicos

De mim lembrando-se

E eu encadeado assim perante

Como se um leão pudesse mugir.

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1 — É constante a novidade. O presente é novidade, a novidade é a nova idade do novo tempo. Os dias não são dias, nem as semanas se acumulam em meses, nem os meses se acumulam pelos anos afora. A novidade é uma ilusão de óptica. A novidade também diz para nos agarrarmos a ela a bem irmos de encontro ao outro lado pela novidade da novidade da novidade da novidade. Ena tantos! Outros atropelam-se na voragem.

2 — Estamos cercados no precipício. Para os golpes de asa já nos anteciparam todas as jogadas. Editaram todas as regras do quotidiano. As nossas conquistas foram-se à mercê de um exército extinto além do negro mais negro da floresta.

3– Trincheiras construídas. Terreno minado. Soldados da liberdade desesperam frente ao ecrã. Nada querem fazer. Desse ruidoso silêncio sempre pode vir qualquer coisinha…

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Aceitar escrever

Como aceitar a agonia

Que é do escrever constante

Que se forma o prazer

Agonia a priori, agonia para a folha

Agonia que nos faz querer ler

Que nos faz querer ler o que eu escrevo eu agora

Que mais vale nomear a agonia

Que esquecer da escrita o que a escrita prova.

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Na Ribeira Sacra

Passei a saber-me

Actor num desses cantos

A trama do fim do número

Vénus conjunto à gasolina

A minha maneira de dizê-lo é a seguinte:

Fazer 26 anos no ano 2000 não é a mesma coisa que o 2026

E se antes estavas no Rossio, agora ficas na Rua da Betesga

No limite, não é impossível que daí saia um governo

E o trabalho diário

O horário semanal

O clube dos editores injustiçados

A porca italiana

Os copos, talheres, palhinhas e champanhe

Em qualquer uma dessas carreiras

Encontras o destino

Ou a viagem.

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UM DIA NA VIDA DE UM GRANDE NÚMERO

Um raio arrasa 550 ovelhas

A abordagem cientifica

Da origem do Sars-Cov-2

História de Portugal em Moedas

A nova adaptação chega ao cinema a 26 de Agosto

Quando a mãe der os parabéns à nova líder da JS

Uns dizem que é o legado da confiança obrigatória

Um dia na vida de grande número

Todos os novos ricos cariocas

Dos mais novos aos mais velhos

Flash tunners, spray a jacto

Auto-bronzeado onde o sol nunca brilha

Uns dias na praia

Um peixe grelhado

E picanha

São as Jornadas Olímpicas da Juventude

Em miúdo tinha paixão pelo futebol

Pela parte do pai

Ouvia muito Robert Johnson.

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Problema é que há sempre aquele jogador

Que dá uma tacada tão forte que a bola sai do próprio estádio, do próprio bairro

Da própria cidade

Do próprio país

É tão clara a intenção no desperceber alheio

A bola fora, o jogo ganho

Sem adversário.

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Forma não forma

Forma

É outra forma. Depois de pesada

Equivale ao texto. Textura ao texto.

Palavra à densidade da matéria

A liberdade pensa

A cor pesa

A luz aberta a golpes de enxada.

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Este violino só tem duas cordas, um x questiona

Há uma persiana que o percorre, só não o encerra

Este violino tem de ser visto

Pode ser alvo de uma sórdida dissolução.

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Não passa a ser novo o ar que se respira?

Se este violino não toca é porque está a tocar.

E a Verdade respira à prova de estarmos vivos.

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Poetas hoje há

Que pensam mais

No seu poema

Do que o seu poema parece

E o seu poema, que se intui,

Parecia alguma coisa,

Afinal não se parece com nada

Que isto à cautela mais vale

Que o que se escreva não se pareça

Com nada, que seja o poeta

A parecer coisa nenhuma

«E o radar sublime do leitor não alcançou no poeta a altura?»

Como não pode o pseudo-poeta

fazer como o pseudo-escritor?

Apesar de ainda não se ter, que eu saiba,

Usado um pós-moderno pós-poeta

Parecer-se com nada sempre entra

Nesse determinado pós-imperativo

Onde o nada sublime exprime

O sublime com nada.

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Pedro Góis Nogueira

Pedro Góis Nogueira

Poems, short stories, essays and aphorisms | Lisbon, Portugal, 1974